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Ontem combinamos que sairíamos cedo hoje, 06:30 horas da manhã e já tinha gente mexendo na moto, carregando as coisas, dando uma apertada ali e aqui. 7:30 horas todos foram para o café da manhã e 8:30 horas todos a moto, prontos para partir. Hoje foi excepcional, nem sempre funciona, mas hoje funcionou, é o que importa.

Para mim e mais fácil, minha moto ficou prática, dois baús laterais para carregar algumas coisas, como chaves, câmaras de ar reservas, remendos para a câmara, bomba para encher a câmara, capa de chuva. A bolsa superior para carregar aquelas coisas que preciso durante o dia e baulete superior para carregar as roupas. Toda vez que parava, tirava só a mochila de roupas e higiene pessoal e a bolsa da frente, pois sai fácil e poderia ser roubada, de manhã coloco de volta a estou pronto para a viagem.

Agora, por último acrescentei o tambor de gasolina, que tirou aquele medo de ficar sem combustível, parando a cada momento para abastecer, temendo não encontrar posto de combustível mais à frente.

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Consultei o site Clima Tempo e confirmo temperatura de 10 graus para a região do Atacama. Coloco a calça de segunda pele (para ambientes de calor) e por cima, a calça X11 própria para motociclistas. Na parte de cima uma caiseta de segunda pele, mais camiseta normal e casaco de motociclista. Tudo certo, para 10 graus.

A viagem começa, 10 graus como previsto. Começamos a subir a cordilheira dos Andes e a coisa começou a esfriar. Primeiro 5 graus, depois 3 graus, 2 graus, até zero graus eu comemorei, mas quando começou a ficar menos do que 0, bateu preocupação. No topo do frio chegou a -8. Pensa num frio! As mãos, o aquecedor de punhos dava sustenção. As pernas até que estavam quentinhas. Mas a parte de cima, quando passava um ventinho, por exemplo no pescoço, a coisa assustava. Lá pelas tantas parei para ver se estava tudo bem com os meus dedos das mãos, já que não estava sentindo eles. Mas Graças a Deus, estava. Montei na moto e continuei.

Depois de subir e subir, finalmente uma planície sem fim, por onde a estrada corria em linha reta, com algumas curvas suaves. Para exemplificar a paisagem nesta altitude (acima de 5 mil metros), você já viu uma área de lavoura preparada? Então, nessa altitude parece isso. Você não vê um só verde, tudo marron, como se a terra tivesse acabado de ser preparada. Isso se estende por uns 300 km. Neste trecho todo, deixei de abastecer num único Posto de combustível que vi e se não fosse o tambor reserva, teria ficado sem combustível.

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Depois começo a descida, a estrada vai serpenteando, quase se encontrando nas curvas, de tão tortas que são. Acha que não? Então veja o mapa.

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Passo por umas montanhas de cor esverdeada, não fasso ideia porque, deve ser algum tipo de minério. Nessa descida da cordilheira, vou recebendo rajadas de vento que dão medo da moto flutuar, mas vou percebendo que não oferecem riscos, pois parece que a moto se inclina para suportar as rajadas. Logo à frente um camping, com pousadas e hotéis e na atrás montanhas coloridas. Como não deve ter água por aqui, acho que as pessoas vem aqui para curtir a cor das montanhas. Acaba a gasolina e meu tambor reserva me salva. Paro e arrumo uma coisa ali, outra lá, enquanto a gasolina corre para dentro do tanque da moto, me preocupando unicamente com as rajadas de vento, que as vezes parece que vão derrubar a moto. Pulo na moto e sigo viagem, querendo parar a cada curva para tirar mais fotos, de tão lindas que são as paisagens que se estendem à frente.

Chegando perto das 19:00 horas, parei em uma cidadezinha a 27 km de Monte Quemado, muito cansado parei no Hotel e perguntei se tinha vaga, disse que sim, mas que não aceitava nem cartão de crédito e nem dólar. Desolado sai e um Argentino (Rolando), perguntou se estava com alguma dificuldade, falei então que precisaria ir até a próxima cidade porque não tinha dinheiro. Imediatamente disse que trocaria os dólares para pagar o hotel, também para a janta e o café.

No outro dia, a corrente de moto ficou solta, um rapaz em outra cidade emprestou as chaves, ainda ofereceu água e almoço. A casa dele virou ponto turístico, pois todos queriam saber detalhes da moto. Passei a ser um mero informante e o astro a BMW.

Ainda, sempre que precisei de ajuda, aparecia alguém para ajudar, colocar a moto no tripé, descer ela, empurrar quando não dava conta, em fim, estava voltando sozinho, mas as pessoas de um outro país sempre estavam à disposição para ajudar. Como digo sempre, 95% das pessoas são boas, no entanto, os 5% causam mais impacto do que os 95% de bons. Que bela lição recebi do povo argentino, pois me ajudaram a cada necessidade, sempre solícitos e disponíveis, fazendo de tudo para que a minha viagem seguisse.

No Paraguai passei rapidamente, mas também, a moto sempre causava espanto e todos queriam saber detalhes sobre ela.

Cheguei em casa, depois de rodar 3.235 km em 3 dias e meio. Neste trajeto todo, tive apenas um susto com um carro que estava passando um caminhão na faixa contínua, à noite, e precisei ir para o acostamento, que só consegui porque minha intuição me disse bem antes que havia algo de errado à frente e saí para a faixa externa da via e em Goiânia, onde por um pequeno descuido a moto caiu e bateu na minha perna. De resto, só coisas boas e muitas reflexões sobre a vida, amigos, familia, coisas, filosofias, pensamentos...

Que viagem!

Elton Iappe

30/04/2018

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